terça-feira, 5 de março de 2013

“Pensar é um privilegio
Falar é uma emoção
Descobrir é um sacrilégio
“Calar é uma aflição.”
Jose Arimateia da Silva

No Cemitério a verdade se instala
E o silencio tem fala.
Todos vão pra uma vala
E são cobertos por terra.
A vaidade se acaba
E a riqueza se encerra.
Jose Arimateia da Silva

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sponholz

                     DOIS  POEMAS  BRASILEIROS DEDICADOS                                           A    ANTÓNIO  NOBRE

                  A ANTÓNIO  NOBRE
                   Petrópolis, 3-2-1916
 TU QUE PENASTE tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto fez correr o pranto: 
Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino !
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e deejando tanto ...  
Mas tu dormiste em paz como as crianças,
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca ... O lindo som ! 
Quem me dará o beijo que cobiço ?
Foste conde aos vinte anos ... Eu, nem isso ...
Eu, não terei a Glória ... nem fui bom.  
                                           Manuel Bandeira
                                          ( A Cinza das Horas, 1917)
  
                          
ELEGIA

Ó virgens que passais, ao sol poente,
Pelas estradas ermas, a cantar:
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me recorde as afeições do lar.

Cantai-me, n´essa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai, cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desenterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer n- um sonho como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me n´essa voz...  Cantai!

                   VOU SOBRE O OCEANO

Vou sobre o Oceano (o luar, de doce, enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terra da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
Na minha Nau Catrineta, adeus!

Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, Marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!

Teu coração dentro do meu descansa,
Teu coração, desde que lá entro:
E tem tão bom dormir essa criança!
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Dorme, menino! dorme, dorme, dorme!
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme,
Tu julgarás que se passou num ai.

Dorme, criança! dorme sossegada
Teus sonhos brancos ainda por abrir:
Depois a morte não te custa nada,
Porque a ela habituaste-te a dormir...

Dorme, meu anjo! (a noite é tão comprida!)
Que doces sonhos tu não hás-de ter!
Depois, com o hábito de os ter na vida,
Continuarás depois de falecer...

Dorme, meu filho! Cheio de sossego,
Esquece-te de tudo e até de mim!
Depois... de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho! e antes assim...

Dorme os teus sonhos, dorme, e não mos digas,
Dorme, filhinho, dorme «ó-ó...»
Dorme, minha alma canta-te cantigas,
Que ela é velhinha como a tua avó!

Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Vou sobre o oceano (o luar, de doce, enleva!)
Por este mar de glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva
Águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!

                   Oceano Atlântico, 1890

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Herança de minha vó

Herança  de minha vó
Autor:  Cazuza Rufino – Belmonte-Pe


Eu vou contar  uma herança
De uma vó para um neto
De um casal bem unido
Ambos eram muito retos
eu como fui o herdeiro
Sou dono dos  objetos
Minha  vó adoeceu
Primeiro fez testamento
Que de seu apartamento
O herdeiro só era eu
Logo em vida ela  me deu
Um tacho velho furado
Um abano remendado
E um mulambo velho de cesto
Uma barrica sem texto
E um cuscuzeiro furado

Ela deixou uma cadeira
Com três pernas arrancadas
Uma casa velha escorada
Sem ter uma telha inteira
A asa de uma chaleira
E a chave velha da porta
Além de tá velha e torta
Enferrujada e demente
Eu fiquei muito contente
Quando vi a velha morta
Herdei um pé de macuca
Três espinhos de “quandú”  (porco-espnmho)
O bucho de um caititu
E dois limões em uma cumbuca
E mais um torrão de açúcar
Que de velho açucarou
E mais que ela deixou
O beijo de um jereré
Um moinho e um coité
E dois ovos de jaburu
Herdei mais um panicum(lençol amarrado que formava uma rede)
Que criou-se o velho dentro
Herdei 3 pés de coentro
De prato só herdei um
A banda de um jerimum
E um brinquinho de latão
Herdei uma mão de pilão
Dois birros e 4 alfinetes
Uma agulha e 2 colchetes
E uma cueca velha sem botão
Ainda se encontrou
Quatro galhos de marcela
Os beiços de uma gamela
Tudo para mim ficou
O mais que ela  deixou
Um cinto cheio de nó
Herdei mais um “urinó”
Furado e catingoso
Era um trastes mimoso
Da finada minha vó
Herdei um quartal famoso
Que só nele  falarei
Nunca negociarei
Por ser muito opinioso
Era um cavalo famoso
Desta forma que lhe digo
Nunca caiu em perigo
Nunca cansou de viagem
Era anima de coragem
E tinha bons sinais consigo
No queixo tinha um inchaço
Três bicheiras nas orelhas
Um jerimum na sarnelha
E quatro lubim no cachaço
Duas bexiga no espinhaço
E um nó no chambaril
Era nasco dum quadril
Pardo da vista morena
Cego da gota serena
Não podia desistir
Tinha um corredor triado
Coberto do arestin
Não comia mais capim
Os dentes tudo arrancado
Tinha os cascos rebitados
Sem poder tocar no chão
Na experiência do Galvão
Era rei dos animais
E pra completar os sinais
Quatro pram nas duas mão
ERA FRACA A SIMETRIA
DA RUA QUE ERA MAL FEITA,
ALÉM DE TORTA ERA ESTREITA
AO TRÂNSITO INTERROMPIA.
TODO MUNDO PROMETIA
MAS QUEM PROMETE NÃO FAZ,
VEIO QUIRINO UM BOM RAPAZ
FEZ O QUE NÃO PROMETEU,
SÓ QUIRINO ENLARGUECEU
A RUA JOSÈ TOMAZ.
O grande poeta cantava numa casa, onde estavam comemorando o aniversário do pai e do filho, ele magistralmente constrói essa sextilha:
TEMOS DOIS ANIVERSÁRIOS
COM IDADES DIFERENTES,
O PAI ENTRE OS PECADORES,
O FILHO ENTRE OS INOCENTES,
O PAI MUDANDO OS CABELOS,
O FILHO MUDANDO OS DENTES
Posso afirmar sem medo de errar, que cantando de improviso mesmo, na safra atual não há ninguém com o talento de um José Alves Sobrinho. Que Deus o acolha no mais sublime dos reinos.
Geraldo Amancio.